PC Palabra Clave (La Plata), octubre 2026 - marzo 2027, vol. 16, núm. 1, e295. ISSN 1853-9912
Universidad Nacional de La Plata
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación
Departamento de Bibliotecología

Artículos de temática libre

Dispositivo informacional Casa Sueli Carneiro: práticas decoloniais de mediação da informação ao enfrentamento do epistemicídio de mulheres negras

Gisele Rocha Côrtes

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Izabella Félix da Silva

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Cita sugerida: Rocha Côrtes, G. y Silva, I. F. da (2026). Dispositivo informacional Casa Sueli Carneiro: práticas decoloniais de mediação da informação ao enfrentamento do epistemicídio de mulheres negras. Palabra Clave (La Plata), 16(1), e295. https://doi.org/10.24215/18539912e295

Resumo: O trabalho, recorte da dissertação em andamento, apresenta como objetivo analisar como a Casa Sueli Carneiro (CSC), delineia por meio da mediação da informação, práticas de resistência ao epistemicídio das mulheres negras. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, se caracteriza como exploratória, documental e descritiva. Para a análise dos conteúdos disseminados, adotou-se a netnografia. Como resultados verifica-se a diversidade de informações mediadas pela CSC, oficinas, cursos, exposições virtuais, especificamente nas atividades realizadas na campanha “21 dias de ativismo contra o racismo” na perspectiva decolonial, favorecendo o empoderamento das mulheres negras. Conclui-se que a CSC é um dispositivo informacional que consubstancia o compartilhamento de conhecimentos que fomentam o enfrentamento ao epistemicídio. Os saberes e memórias negras se entrelaçam, enquanto a mediação da informação, os cursos e as atividades culturais se transformam em formas de resistência, enfrentando as opressões de raça, gênero e classe e abrindo caminhos para a liberdade e a transformação.

Palavras-chave: Mediação da informação, Afrodescendentes, Epistemicídio, Memória histórica, Casa Sueli Carneiro, Brasil.

Information device Casa Sueli Carneiro: decolonial practices of information mediation in confronting the epistemicide of black women

Abstract: This work, an excerpt from the ongoing dissertation, aims to analyze how Casa Sueli Carneiro (CSC) delineates practices of resistance to the epistemicide of Black women through information mediation. The research adopts a qualitative approach, characterized as exploratory, documentary, and descriptive. Netnography was used to analyze the disseminated content. The results demonstrate the diversity of information mediated by CSC, including workshops, courses, and virtual exhibitions, specifically in the activities carried out within the "21 Days of Activism Against Racism" campaign, from a decolonial perspective, fostering the empowerment of Black women. The conclusion is that CSC is an informational device that embodies the sharing of knowledge that fosters the confrontation of epistemicide. Black knowledge and memories intertwine, while information mediation, courses, and cultural activities transform into forms of resistance, confronting racial, gender, and class oppression and opening paths to freedom and transformation.

Keywords: Cultural Mediation, Afro-descendants, Epistemicide, Historical memory, Casa Sueli Carneiro, Brazil.

Dispositivo informativo Casa Sueli Carneiro: prácticas decoloniales de mediación informativa para enfrentar el epistemicidio de las mujeres negras

Resumen: El trabajo, recorte de la disertación en curso, tiene como objetivo analizar cómo la Casa Sueli Carneiro (CSC) delinea, a través de la mediación de la información, prácticas de resistencia al epistemicidio de las mujeres negras. La investigación adopta un enfoque cualitativo, se caracteriza como exploratoria, documental y descriptiva. Para el análisis de los contenidos difundidos, se adoptó la netnografía. Como resultados, se verifica la diversidad de informaciones mediadas por la CSC: talleres, cursos, exposiciones virtuales, específicamente en las actividades realizadas en la campaña “21 días de activismo contra el racismo” desde la perspectiva decolonial, favoreciendo el empoderamiento de las mujeres negras. Se concluye que la CSC es un dispositivo informacional que consubstancia el intercambio de conocimientos que fomentan el enfrentamiento del epistemicidio. Los saberes y memorias negras se entrelazan, mientras la mediación de la información, los cursos y las actividades culturales se transforman en formas de resistencia, enfrentando las opresiones de raza, género y clase y abriendo caminos hacia la libertad y la transformación.

Palabras clave: Mediación Informativa, Afrodescendientes, Epistemicidio, Memoria histórica, Casa Sueli Carneiro, Brasil.

1. Introdução

O projeto colonial, no âmbito da lógica capitalista, cisheteronormativa, racista foi construído a partir da perspectiva do colonizador e do embranquecimento cultural. Assim, pessoas negras, com deficiência, LGBTQIAPN+, população indígena e grupos não hegemônicos, considerados inferiores, foram (são) marginalizados. Lugones (2014, p. 941) enuncia que “(...) o processo de colonização inventou os/as colonizados/as e investiu em sua plena redução a seres primitivos, menos que humanos, possuídos satanicamente, infantis, agressivamente sexuais, e que precisavam ser transformados”.

No que concerne às pessoas negras, tal concepção se consubstancia em práticas sociais, culturais, simbólicas de desumanização e deslegitimação dos saberes produzidos. (Garcês-Da-Silva et al., 2022; Silva & Almeida, 2022). Neste cenário, a imbricação entre racismo e sexismo, aprofunda desigualdades raciais e acentua a opressão sobre as mulheres negras ao incorporar elementos de sexismo e autoritarismo, conforme Moura (2021). A imbricação dos marcadores sociais de raça e gênero, fundantes na estrutura social brasileira, explicitam as iniquidades que persistem na contemporaneidade: as mulheres negras são as maiores vítimas de feminicídio e de mortes maternas. Estão sub-representadas na política, nos cargos de decisão e de gestão em instituições públicas e privadas. No que tange à educação, a implementação de ações afirmativas, a exemplo, da Lei N.º 12.711/2012 (Presidência da República, 2012),1 ocasionou mudanças positivas no acesso de pessoas negras ao ensino superior, entretanto, as mulheres negras enfrentam o racismo institucional e barreiras para terem reconhecimento intelectual.2

Ao partir da perspectiva foucaultiana de que onde há poder, há resistência (Foucault, 2009), este ensaio busca evidenciar práticas de mediação da informação fundamentadas na resistência à colonialidade e à subalternização das mulheres negras. A questão central é: de que maneira a Casa Sueli Carneiro (CSC), enquanto dispositivo informacional, promove práticas de resistência ao epistemicídio das mulheres negras por meio de uma mediação da informação consciente? O objetivo é analisar como esse espaço atua, no ambiente virtual, como um agente mediador de saberes afrocentrados, contribuindo para a valorização dos conhecimentos produzidos por mulheres negras e da cultura africana no Brasil. Considera-se, com base em Pieruccini (2004), que a CSC se configura como um dispositivo informacional capaz de potencializar práticas de resistência ao silenciamento histórico desses saberes. A escassez de estudos decoloniais no campo da Ciência da Informação, aliada à necessidade de fortalecer a mediação de conhecimentos afrocentrados reforça a relevância deste trabalho.

2. Epistemicídio das mulheres negras e decolonialidade

A filósofa, intelectual e ativista Sueli Carneiro, em sua tese de doutorado “Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser", utiliza o conceito de epistemicídio pontuando que se trata de uma das estratégias "(...) mais eficazes e duradouras da dominação étnico/racial, pela negação que empreende da legitimidade das formas de conhecimento, do conhecimento produzido pelos grupos dominados e, consequentemente, de seus membros enquanto sujeitos do conhecimento (Carneiro, 2005, p. 96).

A autora postula que o epistemicídio é uma estratégia central do projeto moderno colonialista eurocêntrico, de supremacia branca e europeia, que se estende a contemporaneidade. Entre as décadas de 1970 e 1980, teóricas e ativistas negras brasileiras, como Beatriz Nascimento (1976) e Lélia Gonzalez (1984, 1988) já apontavam que a visão eurocêntrica, considerada universal, central e hegemônica, precisava ser problematizada para a valorização e reconhecimento de epistemologias decoloniais, na contemporaneidade pesquisas vêm sendo delineadas na perspectiva decolonial por pesquisadoras, ativistas e feministas negras, como Sueli Carneiro (2005, 2023), Leyde Silva (2020), Franciéle Garcês-da-Silva (2021) e Maria Aparecida Moura (2021).

A abordagem decolonial visa resistir e reinterpretar imposições coloniais, envolve crítica e resistência às formas hegemônicas de saber e viver que surgiram a partir do colonialismo (Lugones, 2014), além disso envolve a necessidade de se repensar a estrutura de gênero contemporânea, baseada em um modelo universalizante de mulher. A perspectiva decolonial evidencia a necessidade de subverter a lógica hegemônica, as construções socioculturais que legitimam a violência epistêmica e a subalternização dos saberes, em especial das mulheres negras (Côrtes, 2024; Garcês-Da-Silva et al., 2022).

3. Metodologia

A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, por entender que este tipo de investigação permite compreender fenômenos sociais e culturais a partir dos significados atribuídos pelos sujeitos. Conforme Minayo (2010, p. 22) a abordagem qualitativa “...aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas”. Tal escolha deve-se à sua adequação que permite a compreensão das relações entre mediação da informação, epistemicídio e práticas decoloniais.

Quanto à natureza, o estudo caracteriza-se como exploratório, documental e descritivo. Trata-se de um estudo exploratório pois busca proporcionar familiaridade com o problema, conforme classificado por Gil (2008). Assume também caráter descritivo, pois pretende apresentar as características dos conteúdos informacionais e iniciativas culturais relacionadas à temática, e documental pois utiliza como fonte de dados diversos documentos disponíveis em base dados acadêmicos: artigos, livros, dissertações e teses, bem como informações registradas no site CSC.

O percurso metodológico estruturou-se em duas etapas. Inicialmente realizou-se o levantamento documental e bibliográfico na Base de Dados Referenciais de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI). No corpus da pesquisa, foram incluídos trabalhos publicados no período entre 1972 e 2025. Essa etapa ocorreu em junho de 2025, contemplando buscas com operador booleano AND e termos específicos. Os resultados recuperados foram: “Mediação da informação AND racismo” (10 trabalhos), “Mediação da informação AND interseccionalidade” (3 trabalhos). Nas buscas por “Mediação da informação AND práticas decoloniais” (0 trabalhos) e “Mediação da informação AND epistemicídio negro” (0 trabalhos), identificou-se a baixa produção sobre esses temas.

Na segunda etapa foi adotada a netnografia, método baseado na observação participante e na imersão em contextos virtuais, que utiliza a comunicação mediada por computador como fonte de dados para compreender e representar fenômenos culturais e comunitários (Corrêa & Rozados, 2017). O site CSC foi delimitado como campo empírico de investigação, sendo compreendido como dispositivo de mediação da informação, à luz da concepção de Pieruccini (2004) que o define como “(...) mecanismo de intervenção sobre o real, que atua por meio de formas de organização estruturada, utilizando-se de recursos materiais, tecnológicos, simbólicos e relacionais, que atingem os comportamentos e condutas afetivas, cognitivas e comunicativas dos indivíduos” (Pieruccini, 2004, p. 56).

Foram analisadas três atividades vinculadas à campanha “21 dias de ativismo contra o racismo”: o Curso Introdução ao Pensamento de Lélia González; a Aula Aberta Pública e Gratuita com Sueli Carneiro, em parceria com o Sesc EAD São Paulo; e a Roda: Memória Negra como Estratégia Política – a CSC e o projeto Constelações de Memória Negra. São descritas as características da biblioteca e suas especificidades, bem como a atuação da instituição no âmbito digital. Delimitou-se a descrição e a análise de conteúdos informacionais mediados nas três atividades vinculadas à campanha “21 dias de ativismo contra o racismo”, sendo que a coleta de dados foi realizada no site CSC, em junho de 2025.

Para interpretar os dados coletados, foi adotada a técnica de análise de conteúdo proposta por Laurence Bardin (1977, p. 38), que a define como “(...) um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens”. A categorização temática foi orientada por núcleos de sentidos emergentes relacionados à mediação da informação e à resistência epistêmica, identificados com base na recorrência e relevância dos conteúdos analisados.

4. Casa Sueli Carneiro: mediação da informação tecendo práticas decoloniais de resistência ao epistemicídio das mulheres negras

A instituição negra CSC, foi criada em 2020, com o objetivo de preservar, visibilizar e disseminar informações aos saberes e conhecimentos da população negra, com resgate a ancestralidade. Por meio de cursos, oficinas, publicações e acervo afrocentrado, em ambiente físico e virtual. A estrutura administrativa da CSC é organizada em três categorias principais: a diretoria executiva, o conselho consultivo e o conselho fiscal. A Diretoria Executiva, gestão de dezembro de 2023 a dezembro de 2026 é integrada por uma equipe de três mulheres negras: Bianca Santana, Natália Carneiro e Luanda Carneiro Jacoel.

O processo de construção da CSC, a elaboração dos conteúdos disseminados no site e as atividades culturais, são desenvolvidas pelo conselho executivo e fiscal da casa, em parceria com ativistas teóricos, militância do movimento feminista negro, o que explicita a postura dialógica, crítica, com vistas a atender e estimular a demanda de novas necessidades informacionais. O conceito de mediação da informação no presente estudo, é compreendido nas linhas do professor brasileiro Oswaldo Almeida Júnior que a postula como:

Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais. (Almeida, 2015, p. 25)

Nesse sentido, a mediação da informação pode ser compreendida segundo: os elementos que estruturam esse processo; a interferência ativa do(a) mediador(a), que rompe com a ideia de neutralidade; a geração de conflitos, que promove a ressignificação da informação; a intencionalidade da ação mediadora; e a promoção da apropriação da informação como processo dinâmico. Esses elementos são fundamentais para compreender a atuação da CSC enquanto dispositivo informacional.

A apropriação da informação se configura como um processo produzido pela ação mediadora e fundamentado no alcance das dimensões dialógica, estética e formativa. Conforme indicado por Henriette Gomes (2020), o processo de apropriação da informação é dinâmico, pois permite a(o) usuário(a) a construção de sentido, autonomia e protagonismo social, fortalecendo sua capacidade de agir e participar criticamente na sociedade (Gomes, 2020).

Para complementar essa perspectiva, Ellen Borges e Oswaldo Almeida Júnior (2022) ressaltam que a apropriação da informação ocorre no âmbito das interações sociais, configurando-se como um processo de (res)significação que contribui para a constituição de uma memória coletiva informacional.

Na CSC, nota-se a interferência como elemento político imprescindível no processo de mediação da informação, ao recusar a passividade e a neutralidade da(o) mediadora(o). A apropriação da informação é compreendida como um processo dinâmico que permite a construção de sentidos, autonomia e protagonismo social dos interagentes (Borges & Almeida Júnior, 2022; Gomes, 2020).

Esse processo favorece o enfrentamento aos preconceitos e estereótipos presentes na sociedade. No que concerne à geração de conflitos, trata-se do confronto de ideias e perspectivas pré-concebidas e divergentes, entre a pessoa usuária e a informação, o que impulsiona à (des)construção de preconceitos enraizados na sociedade.

Nas paredes interna e externa da casa conforme demonstra a Figura 1,3 já é possível verificar a mediação da informação implícita (Almeida, 2015), com fotos de lutas, debates, ativismos do movimento negro e valorização do protagonismo social de mulheres negras, em especial Sueli Carneiro.

Figura 1
Fotos da Casa Sueli Carneiro
Fotos da Casa Sueli Carneiro
Fonte: Studio Bel Xavier – Casa Sueli Carneiro.

Na Figura 1, observa-se acomposição estética das ilustrações presentes no muro da CSC configura-se como um dispositivo simbólico que ressignifica o espaço urbano, afirmando-o como território de resistência e salvaguarda da memória histórica da população negra. As figuras negras representadas com livros em mãos, reafirma visualmente o compromisso da instituição com a educação voltada à população negra. As pinturas com representações da natureza objetivam associar a concepção de que a natureza integra o saber, o ser humano. Além disso, o mural se configura como ação de mediação cultural ao reconfigurar a paisagem urbana e transformá-la em um espaço de expressão, saber e valorização das identidades negras. A mediação cultural da informação destaca a interface da informação, cultura e a capacidade dos indivíduos de gerar significados a partir de suas interações (Silva & Cavalcante, 2020). O espaço físico da instituição é localizado em São Paulo. O local escolhido para sediar a instituição, não poderia ser mais simbólico, trata-se da casa onde a intelectual e ativista Sueli Carneiro residiu por quatro décadas. Verificou-se, que, em sua história, o local abrigou estudantes, encontros ativistas e práticas religiosas do Candomblé (Itaú Cultural, 2021).

A CSC abriga uma biblioteca que se configura como um dispositivo informacional de promoção do conhecimento afrocentrado. Coordenada pela bibliotecária Maria Ionara Lourenço, responsável pela organização e disseminação da informação no espaço, a biblioteca desempenha um papel central na valorização da memória negra. Foi por meio de sua atuação nesse ambiente que a profissional teve seu primeiro contato mais direto com o movimento negro, aprofundando o compromisso com a luta antirracista, o que despertou, a partir dessa vivência profissional interesse em se apropriar mais das temáticas étnico-raciais. Em relato publicado no Instagram da CSC,4 Maria Ionara destaca que à proximidade com o acervo a permitiu compreender “a dimensão que é Sueli Carneiro”.5

Figura 2
Acervo da Biblioteca da Casa Sueli Carneiro e bibliotecária responsável
Acervo da Biblioteca da Casa Sueli Carneiro e bibliotecária responsável
Fonte: Studio Bel Xavier – Casa Sueli Carneiro / Instagram @casasuelicarneiro.

O acervo da biblioteca da CSC, conta com mais de 1.500 itens em sua coleção, sendo a maioria composta por obras da área de Ciências Sociais, com recortes temáticos sobre raça, gênero, educação, racismo e feminismos. Sua organização é feita com base na Classificação Decimal de Dewey e no sistema Cutter.

As visitas guiadas no acervo físico que promovidas na CSC, permitem ao público ter certa medida proximidade do pensamento de Sueli Carneiro, Gracy Mary Moreira expressa sua satisfação em conhecer o acervo, sublinhando a importância do acervo com uma inspiração e fortalecimento das lutas dos movimentos negros:

(...) são de uma magnitude fabulosa, para entender o que Sueli pensou dentro de todo esse acervo que tem aqui. De modo que eles não pensaram só num acervo pessoal, mas, a partir dela, esse acervo pessoal consegue transmitir e potencializar as nossas mentes para a reprodução, de tal forma que as pessoas consigam entender a potencialidade do nosso movimento. (Casa Sueli Carneiro, 2025c)

O nome da instituição é uma homenagem a Sueli Carneiro, protagonista social no enfrentamento ao epistemicídio da população negra, tanto no ativismo quanto na trajetória teórica. Filósofa e doutora em Educação pela Universidade Estadual de São Paulo, acumula mais de 180 publicações em jornais, revistas e livros. Ao longo de sua trajetória como intelectual e ativista antirracista, foi reconhecida com diversos prêmios de grande relevância.

Destacam-se os reconhecimentos recebidos por Sueli Carneiro, relacionados no site CSC: Diploma Bertha Lutz - Mulher Cidadã, concedido pelo Senado Federal em 2003; Prêmio Orilaxé em Direitos Humanos, conferido pelo Grupo Afro Reggae em 2002; Prêmio Franz de Castro Holzwarth de Direitos Humanos, pela Ordem dos Advogados do Brasil em 1999; Prêmio Mulheres do Brasil, recebido em 2001; título “Luta, gênero feminino”, outorgado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1998; e Comenda pelo Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, outorgada pelo Governo da França em 1998. Esses prêmios e títulos concedidos à filósofa Sueli Carneiro constituem um reflexo do reconhecimento público de sua atuação engajada.

O reconhecimento público de Sueli Carneiro, refletido em sua trajetória e nas homenagens recebidas, fundamenta e legitima a importância da CSC como espaço de resistência e produção de conhecimento. A análise sobre de que forma a CSC, enquanto dispositivo de mediação da informação delineia práticas de resistência ao epistemicídio das mulheres negras por meio da mediação consciente da informação, delimitou-se a descrição e a análise dos conteúdos das seções intituladas: Programação e Cursos, no ambiente virtual.6

Nesse contexto, as tecnologias de informação e comunicação criaram uma ruptura nas formas de disseminação e apropriação da informação, o ambiente digital tornou-se não apenas uma extensão das lutas das mulheres negras, mas também uma parte da estratégia de resistência e pertencimento (Silva & Almeida, 2022). Esses espaços propiciam diversas formas para impulsionar os movimentos negros e de mulheres negras, por meio da práxis de mulheres organizadas, a exemplo da CSC. Em 2021, a instituição iniciou as atividades de forma on-line e no mesmo ano, foi criada a página no Instagram da CSC - @casasuelicarneiro, um canal de informação voltado a divulgar as iniciativas da instituição.

Figura 3
Página inicial do site Casa Sueli Carneiro
Página inicial do site Casa Sueli Carneiro
Fonte: site Casa Sueli Carneiro (2025b).

Na seção intitulada Programação, apresenta-se uma variedade de atividades culturais, educativas e políticas que se alinham com os objetivos da instituição de promoção ao ativismo negro. A campanha “21 dias de ativismo contra o racismo” divulgada na seção programação foi incorporada pela instituição para somar esforços e construir na sociedade um pensamento crítico sobre as questões raciais. A iniciativa contou com três ações operacionalizadas pela instituição:

  • “Curso Introdução ao pensamento de Lélia González”;

  • “Aula aberta pública e gratuita com Sueli Carneiro” em parceria com o Sesc EAD;

  • “Roda: Memória negra como estratégia política: a CSC e o projeto Constelações de Memória Negra”.

Figura 4
Programação Casa Sueli Carneiro
Programação Casa Sueli Carneiro
Fonte: site Casa Sueli Carneiro (2025a).

A primeira ação da campanha consistiu no oferecimento do curso Introdução ao Pensamento de Lélia González, cuja ementa lança luz sobre a trajetória de Lélia González, importante intelectual, professora e militante negra, que participou ativamente do Movimento Negro Unificado e do Movimento das Mulheres Negras durante a ditadura militar no Brasil. O curso propôs-se a realizar uma imersão no pensamento de Lélia González, evidenciando seu legado intelectual no cenário nacional. Sob a perspectiva histórica, o estudo dos textos de autoria de Lélia González e sua atuação política constituíram pontos de destaque neste curso.

Figura 5
Curso Introdução ao pensamento de Lélia Gonzalez
Curso Introdução ao pensamento de Lélia Gonzalez
Fonte: site Casa Sueli Carneiro (2025a).

O curso Introdução ao pensamento de Lélia Gonzalez - 2024, possibilitou às pessoas participantes a apropriação efetiva da informação. Como expressa Paloma, participante do curso:

Participar do curso foi uma experiência indescritível. Através de Lélia, compreendi o que é tornar-se mulher negra na complexa realidade brasileira. Esse processo, ao mesmo tempo em que desperta revoltas, também nos reposiciona socialmente. Uma das frases que mais me marcou foi: “Agora o lixo vai falar”, pois ela nos reinsere na sociedade enquanto mulheres, enquanto resistência, enquanto luta. (Casa Sueli Carneiro, 2025d)

O depoimento da aluna evidencia como os saberes de Lélia Gonzalez possibilitam às mulheres negras (re)significar suas vivências e experiências no âmbito social. As ações formativas desenvolvidas no âmbito da educação popular pela instituição CSC, têm o objetivo preservar a memória negra, que, por meio da mediação da informação sobre história e o legado do movimento negro no Brasil, democratizam o acesso a essas informações, direcionadas a pessoas negras.

A segunda ação realizada pela instituição, no contexto da campanha “21 dias de ativismo contra o racismo”, tratou-se da transmissão de uma aula aberta, pública e gratuita, ministrada pela filósofa Sueli Carneiro, em colaboração com o Serviço Social do Comércio – São Paulo (SESC/SP). A aula foi realizada através de uma live veiculada no canal do YouTube do SESC/SP, na qual a professora Sueli Carneiro abordou diversas questões pautadas em seu livro “Dispositivo de Racialidade: A construção do outro como não-ser como fundamento do ser”, publicado em 2023 (Carneiro, 2023).

A promoção da aula pública é parte integrante do curso Dispositivo de Racialidade, realizado em parceria com o SESC/SP, que reúne um compilado de vídeos com Sueli Carneiro e outras/os pensadoras/es negras/os. A live, que ficou registrada no canal do YouTube do SESC/SP e permitiu à visualização posterior pública, alcançou mais de vinte mil visualizações, com inúmeros comentários de usuárias/os da plataforma conforme disposto no Quadro 1.

Quadro 1
Comentários de usuárias/os sobre a aula aberta ministrada por Sueli Carneiro
Usuárias/osComentários
Usuária/o 1“Que privilégio poder viver no mesmo tempo histórico que essa mulher tão maravilhosa! Obrigada pela sua presença no mundo, por sua inteligência, produção intelectual e militância”.
Usuária/o 2Que debate rico e falas necessárias. Maravilhosas! A luta continua!”.
Usuária/o 3“Excelentíssima aula, Sueli! Pretendo utilizar seu livro como referência em minha pesquisa. Muitíssimo grata pelo compartilhamento de conhecimentos”.
Fonte: elaboração própria.

As interações evidenciaram a recepção positiva do conteúdo, com manifestações que ressaltaram a relevância temática e a contribuição da transmissão para o aprofundamento dos conhecimentos relacionados à temática discutida na aula.

A terceira ação, a oficina de elaborações teatrais promovida pela campanha “21 dias de ativismo contra o racismo”, foi mediada por Jéssica Nascimento Olaegbé. A atividade objetivou desenvolver narrativas com as temáticas: corpo negro afrodiaspórico e decolonialidade, baseadas na vida e obra de Sueli Carneiro, a partir de seu legado e trajetória (Casa Sueli Carneiro, 2025a).

Em uma de suas falas, Jéssica Olaegbé expressa: “Não fomos nós que inventamos essas cercas. A África não é um compilado geográfico, uma experiência histórica compilada ou um território de similitudes culturais”. Observa-se, nas atividades desenvolvidas pela CSC, o alinhamento com as práticas decoloniais, na medida em que estas se fundamentam na valorização e disseminação dos saberes historicamente negados pelas estruturas coloniais e racistas, produzidos pelas populações negras.

O site CSC se configura como um dispositivo informacional, conceito de Ivete Pieruccini (2004), que reúne ambientes, técnicas e conteúdos diversos. Nesse espaço digital, saberes e memórias negras se entrelaçam, enquanto a mediação da informação, os cursos e as atividades culturais se transformam em formas de resistência, enfrentando opressões de raça, gênero e classe e abrindo caminhos para a liberdade e a transformação.

Considerações finais

Os resultados da pesquisa permitem responder à questão proposta, evidenciando que a CSC, enquanto dispositivo informacional, promove práticas de resistência ao epistemicídio das mulheres negras por meio de uma mediação da informação intencional, situada e comprometida com a valorização de saberes afrocentrados.

Os conteúdos informacionais mediados no site CSC revelam, em sua essência, uma prática decolonial, ao disseminar e mediar informações que reforçam a luta pela desconstrução de narrativas hegemônicas. Esse processo favorece a apropriação da informação por meio da produção, organização, acesso e divulgação de conteúdos que desnaturalizam e problematizam o apagamento e a inferiorização dos saberes e conhecimentos das mulheres negras.

Constata-se que os materiais presentes na programação evidenciam que as mulheres negras resistiram, por meio de estratégias diversificadas, à dominação em diversos contextos sócio-históricos: nos quilombos, nas religiões de matriz africana, nos movimentos organizados, no saber oral e na produção de epistemologias contra-hegemônicas e decoloniais (Werneck, 2010). A presença de uma bibliotecária na equipe da casa reforça o merecido reconhecimento do trabalho dos profissionais da informação em múltiplas ambiências informacionais, reconhecimento este que deve ser ampliado nas organizações.

Por fim, a mediação da informação, assim como a preservação e reparação da memória negra, precisa ser mais visibilizada nos cursos de graduação e pós-graduação em Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, para que as práticas profissionais e pesquisas possam ser fortalecidas como espaços de resistência ao racismo estrutural e ao epistemicídio negro.

Financiamento

Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio da concessão de uma bolsa de mestrado.

Roles de colaboración

Izabella Félix da Silva: conceituação, investigação, metodologia, redação.

Gisele Rocha Côrtes: metodologia, análise formal, redação – revisão e edição, supervisão.

Fontes documentais

Casa Sueli Carneiro. (2025a). Programação: das mulheridades Gẹ̀lẹ̀dẹ̀ às elaborações teatrais.

https://casasuelicarneiro.org.br/programacao/das-mulheridades-gelede-as-elaboracoes-teatrais-participe-da-oficina-de-jessica-gomes-do-nascimento-olaegbe-residente-do-programa-de-residencias-da-casa-sueli-carneiro/

Casa Sueli Carneiro. (2025b). Sobre a casa. https://casasuelicarneiro.org.br/sobre-a-casa/

Casa Sueli Carneiro. (2025c, 25 de março). Gracy Moreira Gestora da Casa Tia Ciata [Vídeo]. Instagram.

https://www.instagram.com/reel/DHotrwZtfuh/?igsh=MXB3MjM2ZDR1b3YyNQ==

Casa Sueli Carneiro. (2025d, 2 de abril). Paloma participante do curso [Vídeo]. Instagram. https://www.instagram.com/reel/DH9UM4DvPIJ/?igsh=MXZncGlsOHZidTk0Mw==

Itaú Cultural. (2021, 26 de outubro). A Casa Sueli Carneiro:Ocupação Sueli Carneiro (2021). [Video]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=8P2XgDyuS0A

Lei N.º 12.711. 29 de agosto de 2012. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm

Sesc - Serviço Social do Comércio. (2025). Aula Aberta: dispositivo de racialidade, com Sueli Carneiro [Vídeo]. https://www.youtube.com/watch?v=Cj1EAgXFX2o&t=4s

Referências

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Notas

1 Lei N.º 12.711, que estabelece a reserva de vagas para estudantes negros, indígenas, pessoas com deficiência, de baixa renda e provenientes de escolas públicas, visando o ingresso em universidades públicas e institutos federais de ensino técnico. A lei determina a reserva de vagas para essas categorias em uma proporção de 50% do total de vagas.
2 Acessar a docência na pós-graduação ainda é exceção, os dados apontam que menos de 3% dos/as docentes de pós-graduação eram mulheres negras.
3 Fotografias recuperadas de https://www.belxavier.com/Casa-Sueli-Carneiro
4 Relato da bibliotecária Maria Ionara Lourenço. Disponível em https://www.instagram.com/p/Cf32n6hjgRv/
5 Fotografia do acervo da biblioteca recuperada de https://www.belxavier.com/Casa-Sueli-Carneiro. Fotografia da bibliotecária recuperada do Instagram @casasuelicarneiro, disponível em https://www.instagram.com/casasuelicarneiro/
6 A CSC recebe apoio por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, além de patrocínio proveniente de instituições parceiras. As demonstrações financeiras referentes aos exercícios de 2021, 2022 e 2023 encontram-se disponíveis na seção Transparência no site da CSC.


Recepción: 02 Agosto 2025

Aprobación: 06 Mayo 2026

Publicación: 01 Octubre 2026



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