PC Palabra Clave (La Plata), abril - septiembre 2026, vol. 15, núm. 2, e285. ISSN 1853-9912
Universidad Nacional de La Plata
Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación
Departamento de Bibliotecología

Desarrollos e innovaciones

Questões de gênero no catálogo do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará: uma proposta de revisão de termos

Ana Rafaela Sales de Araújo

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal da Paraíba / Sistema de Bibliotecas, Universidade Federal do Ceará, Brasil
Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque

Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Cita sugerida: Araújo, A. R. S. de y Albuquerque, M. E. B. C. (2026). Questões de gênero no catálogo do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará: uma proposta de revisão de termos. Palabra Clave (La Plata), 15(2), e285. https://doi.org/10.24215/18539912e285

Resumo: Trata de um estudo sobre questões de gênero no catálogo do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará (SiBi-UFC). O objetivo deste artigo é abordar as questões de gênero no catálogo SiBi-UFC, em especial, no que se refere aos pontos de acesso de assunto que contêm a palavra homem, visando delinear uma revisão e sugestão de termos para maturação das atividades terminológicas de gênero. A metodologia é caracterizada por um estudo no catálogo do SiBi-UFC com abordagem exploratória, bibliográfica, documental e qualitativa, definindo como instrumentos para coleta de dados a análise documental por meio de uma busca com o termo “homem” no catálogo do SiBi-UFC e nos cabeçalhos de assunto (Library of Congress) e para análise de dados a análise de conteúdo por meio da construção de quatro categorias: Seres Humanos; Disciplinas; Mista; Outros. Conclui-se a pertinência de aprimoramento do catálogo SiBi-UFC em relação às questões de gênero nos seguintes aspectos: não usar termos genéricos de gênero, a exemplo de “homem”; evitar a adjetivação dos termos por meio do uso de feminino, de masculino; duplicidade de registros de autoridade de diversas fontes no catálogo, isto é, inclusão de mais de um registro de autoridade do DeCS e dos LCSH que de fato são sinônimos; enviesamento de gênero por meio da manutenção de termos ou de remissivas “ver” que incluem a palavra “homem”.

Palavras-chave: Cabeçalhos de assunto, Catálogos on-line, Perspectiva de gênero, Indexação, Bibliotecas universitárias, Brasil.

Gender issues in the catalog of the Library System of the Federal University of Ceará: a proposal for term revision

Abstract: It deals with a study on gender issues in the catalog of the Library System of the Federal University of Ceará (SiBi-UFC). The objective of this article is to address gender issues in the SiBi-UFC catalog, particularly concerning subject headings that include the word "man," aiming to outline a review and suggest terms for the maturation of gender-related terminological activities. The methodology is characterized by an exploratory, bibliographic, documentary, and qualitative study of the SiBi-UFC catalog, defining as data collection tools the documentary analysis through a search for the term "man" in the SiBi-UFC catalog and in the subject headings (Library of Congress). For data analysis, content analysis is used, constructing four categories: Human Beings; Disciplines; Mixed; Others. The study concludes that there is a need for improvement in the SiBi-UFC catalog regarding gender issues in the following aspects: avoiding the use of generic gender terms, such as "man"; avoiding the adjectivation of terms through the use of feminine or masculine forms; duplication of authority records from various sources in the catalog, i.e., the inclusion of more than one authority record from DeCS and LCSH that are actually synonyms; gender bias through the maintenance of terms or "see" references that include the word "man”.

Keywords: Subject headings, Online catalogs, Gender perspective, Indexing, Academic libraries, Brazil.

Cuestiones de género en el catálogo del Sistema de Bibliotecas de la Universidad Federal de Ceará: una propuesta de revisión de términos

Resumen: Se trata de un estudio sobre cuestiones de género en el catálogo del Sistema de Bibliotecas de la Universidad Federal de Ceara (SiBi-UFC). El objetivo de este artículo es abordar las cuestiones de género en el catálogo SiBi-UFC, en particular, en lo que se refiere a los puntos de acceso de materia que contienen la palabra "hombre", con el fin de delinear una revisión y sugerencia de términos para la maduración de las actividades terminológicas de género. La metodología se caracteriza por un estudio en el catálogo del SiBi-UFC con un enfoque exploratorio, bibliográfico, documental y cualitativo, definiendo como instrumentos para la recolección de datos el análisis documental mediante una búsqueda con el término "hombre" en el catálogo del SiBi-UFC y en los encabezamientos de materia (Library of Congress), y para el análisis de datos, el análisis de contenido mediante la construcción de cuatro categorías: Seres Humanos; Disciplinas; Mixta; Otros. Se concluye la pertinencia de mejorar el catálogo SiBi-UFC en relación con las cuestiones de género en los siguientes aspectos: no usar términos genéricos de género, como "hombre"; evitar la adjetivación de los términos mediante el uso de femenino o masculino; duplicidad de registros de autoridad de diversas fuentes en el catálogo, es decir, la inclusión de más de un registro de autoridad del DeCS y de los LCSH que en realidad son sinónimos; sesgo de género a través del mantenimiento de términos o referencias "ver" que incluyen la palabra "hombre".

Palabras clave: Encabezamientos de materia, Catálogos en línea, Perspectiva de género, Indización, Bibliotecas universitarias, Brasil.

1. Introdução

Historicamente, os termos relacionados ao gênero são compostos por preconceitos, sendo desdobrados em várias instâncias, como questões de linguagem, de cognição, de cultura, de representação social e até de áreas da ciência, criando uma dimensão estrutural de degradação, de desvalorização das mulheres.

Simone de Beauvoir, filósofa, francesa e teórica do feminismo moderno, explicita que “a representação do mundo, como o próprio mundo, é operação dos homens; eles [os homens] os descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta” (Beauvoir, 1970, p. 183).

Essas concepções estão fortemente arraigadas nos Sistemas de Organização do Conhecimento utilizados pelas bibliotecas, a exemplo de sistemas de classificação bibliográficas, como a Classificação Decimal de Dewey (CDD), com a notação 610.73092 – Enfermeiros, e a Classificação Decimal Universal (CDU), com a notação 791-552 – Mulheres fatais no cinema.

Essas questões terminológicas impactam fortemente as políticas de Organização e Representação da Informação, em especial, as políticas de indexação das bibliotecas universitárias, que demandam a criação de comissões de estudo especializado e/ou grupos de trabalho para fortalecer a atuação com os vocabulários controlados, visando à construção de práticas terminológicas que contemplem a atualidade técnica e científica das questões de gênero.

O Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará (SiBi-UFC) possui uma política de indexação que contempla questões genéricas de gênero, sendo pertinente o amadurecimento das práticas terminológicas em seu catálogo que considere a diversidade de gênero. Para tanto, o fortalecimento das comissões e/ou grupos de trabalho em Organização e Representação da Informação voltados à realização de atividades de ensino, de pesquisa, de extensão, de eventos, de gestão e de práticas profissionais é crucial para construção de uma política de indexação robusta e correspondente com os fatos relacionados às questões de gênero.

Vale ressaltar que a base do catálogo do SiBi-UFC é inspirada nos Library of Congress Subject Headings (LCSH), que se constitui como um dos cabeçalhos de assunto de referência em bibliotecas universitárias. No entanto, embora os LCSH contribuam significativamente para a atividade terminológica internacional, com grande ênfase no Brasil, há enviesamentos que precisam ser discutidos sobre termos relacionados às questões de gênero aplicados ao SiBi-UFC, compreendendo que alguns pontos de acesso de assunto no catálogo precisam ser revisados e atualizados, a fim de robustecer o catálogo e a política de indexação do SiBi-UFC, inclusive para torná-los justos, equitativos, plurais e atualizados do ponto vista da Organização e Representação da Informação relacionada às questões de gênero.

Desse modo, tem-se a seguinte pergunta problema: quais as perspectivas de aprimoramento do catálogo SiBi-UFC, no que se refere às questões de gênero, com ênfase nos termos que contêm a palavra homem?

Este estudo é justificado pela importância do tema, visto a necessidade de permanente revisão dos cabeçalhos de assunto do catálogo do Sistema Pergamum, do SiBi-UFC que contemple as questões de gênero, bem como pela importância do problema, considerando os níveis de atuação do SiBi-UFC com as terminologias relacionadas a esta temática.

As razões que motivam a pesquisa são as seguintes:

  • acadêmica – construção de novos conhecimentos que contemplem a relação entre gênero e cabeçalhos de assunto no âmbito do catálogo SiBi-UFC;

  • profissional – o fato de atuar em biblioteca universitária, na área de Organização e Representação da Informação, exige um avanço no desenvolvimento de estudos sobre o catálogo do SiBi-UFC, nas terminologias de um modo geral, com ênfase nas questões de gênero;

  • institucional – considerar a capacidade de revisão e de aprimoramento do catálogo de autoridades de assunto do SiBi-UFC em relação às questões de gênero.

O objetivo deste artigo é abordar as questões de gênero no catálogo SiBi-UFC, em especial, no que se refere aos pontos de acesso de assunto que contêm a palavra homem, visando delinear uma revisão e sugestão de termos para maturação das atividades terminológicas de gênero.

O artigo possui duas discussões para o referencial teórico. A primeira sobre as questões de gênero nos LCSH, que são um dos principais balizadores do catálogo SiBi-UFC e a segunda sobre a política de indexação do SiBi-UFC, considerando as questões de gênero.

A metodologia é caracterizada por um estudo no catálogo SiBi-UFC, com abordagem exploratória, bibliográfica, documental e qualitativa, definindo como instrumento para coleta de dados a análise documental por meio de uma busca com os termos que contêm a palavra “homem” no catálogo SiBi-UFC e, a partir dos termos recuperados e de critérios de inclusão e de exclusão, foi realizada a busca de 31 cabeçalhos de assunto e remissivas “ver” na ferramenta Linked Data Service da Biblioteca do Congresso Americano, que contêm a palavra “man” e, para análise de dados, a análise de conteúdo por meio da construção de quatro categorias: Seres Humanos; Disciplinas; Mista; Outros.

A análise dos dados contempla uma revisão e sugestão de aprimoramento dos termos por meio de cada categoria. As categorias foram estabelecidas para promover uma concepção específica sobre as temáticas as quais os pontos de acesso de assunto estão associados, para facilitar a compreensão sobre cada termo e as possíveis revisões e atualizações com relação às questões de gênero.

Judith Butler, filósofa, estadunidense e teórica de gênero, publicou em 1990 o livro Gender trouble: feminism and the subversion of identity (Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade –tradução em língua portuguesa–, Butler, 2003), que aborda a noção de gênero como não determinada pela biologia e nem pela cultura, mas sim uma produção do poder,1 que opera imposta pela matriz heterossexual.2

A pesquisadora atua na acepção de gênero como ato performativo executado repetidamente, defende também a pluralidade desses atos, de formas de ser e de existir como força criativa e de resistência ao engessamento (a predefinição na categoria “mulher” ou “homem”), à imposição, à imobilidade das identidades.

2. Reflexões sobre termos relacionados a questões de gênero nos LCSH

A Library of Congress se notabilizou historicamente com um dos cabeçalhos de assunto mais referenciados do mundo, os Library of Congress Subject Headings (LCSH), sendo base para adaptação, tradução de diversos outros cabeçalhos, a exemplo da Biblioteca Nacional (Brasil).

Os LCSH são mantidos desde 1898 para catalogar obras da Biblioteca do Congresso Americano, regularmente revisados pela Divisão de Políticas e Padrões da Library of Congress (2024).

No entanto, como qualquer cabeçalho de assunto, há a necessidade de revisão permanente dos conceitos que o compõem, considerando que há questões cognitivas, culturais, históricas e ideológicas que podem trazer determinados enviesamentos terminológicos.

Um exemplo marcante desses enviesamentos nos LCSH, envolvem questões de gênero, que historicamente possuem uma dominação patriarcal,3 e que podem comumente não reverberar as múltiplas factualidades de gênero.

Para definir o diálogo acerca das questões de gênero na LCSH, o ponto de partida é a autora Elizabeth Farrell Mccraw Hobart (2019), que produziu o capítulo de livro “Reflecting diversity in the Library of Congress Subject Headings” (Refletindo a diversidade nos Cabeçalhos de assunto da Biblioteca do Congresso Americano), trazendo as seguintes constatações, a saber:

  • o que é considerado padrão na LCSH são pontos de acesso de assunto4 que representam homens brancos, heterossexuais, de classe média e fisicamente aptos, isto é, sem deficiência, inclusive o uso de termos no masculino para representar profissões;

  • anteriormente na LCSH, os cabeçalhos de assunto para obras que tratam da atuação das mulheres em um contexto profissional, eram autorizados como “Women as...” (Mulheres como...). Essa construção persiste em outros campos, tais como: formas estabelecidas anteriormente, variantes ou remissivas “ver” e o termo preferido passou a ser: “Women engineers” (Mulheres Engenheiras), “Women inventors” (Mulheres Inventoras) etc.;

  • apesar dessas melhorias, o padrão terminológico ainda é o masculino, inclusive nas profissões predominantemente exercidas por mulheres, por exemplo: “Librarians” (Bibliotecários), “Nurses” (Enfermeiros), “Makeup artists” (Maquiadores), “Physical therapists” (Fisioterapeutas), o que vai de encontro com o princípio da garantia literária;5

  • no tratamento temático das obras, há apenas alguns cabeçalhos em que as mulheres são consideradas como padrão, no contexto geral das violências, a exemplo de: "Rape victims" (Vítimas de estupro) possui como termo variante “Female rape victims” (Mulheres vítimas de estupro); “Sexual abuse victims” (Vítimas de abuso sexual) possui como sinônimo "Female sexual abuse victims" (Mulheres vítimas de abuso sexual);

  • no entanto, são criados cabeçalhos de assunto separados para publicações que tratam de “Male rape victims” ou “Men rape victims” (Homens vítimas de estupro), independentemente do número de publicações existentes no acervo;

  • como resultado, a indexação de um livro sobre homens vítimas de estupro é realizada com especificidade e consistência sob o termo “Male rape victims” (Homens vítimas de estupro), entretanto, um livro acerca de questões relacionadas às mulheres vítimas de estupro é indexado apenas em "Rape victims" (Vítimas de estupro).

Diante do diálogo com Hobart (2019), a primeira constatação é de que a criação de um cabeçalho de assunto separado não é autorizada para questões relacionadas às mulheres, enquanto para masculinidades, não é necessário volume e robustez de documentos, basta uma obra para que seja elaborado cabeçalho único, separado e específico, o que inclui profissões. Em outras palavras, nos LCSH o dominante são perspectivas de homens, brancos, héteros e cis.

A segunda constatação é que no contexto das violências às mulheres são consideradas um padrão terminológico, a exemplo de “Vítimas de estupro”, com a remissiva “ver” “Mulheres vítimas de estupro”, enquanto que para masculinidades, há um vocabulário específico, “Homens vítimas de estupro”, sendo pertinente interpelar: Por que questões que afetam predominantemente a vida das mulheres, segundo o UNICEF (2023), não possuem um vocabulário único, a exemplo de “Mulheres vítimas de estupro”, em contrapartida, para homens, há o cabeçalho de assunto “Homens vítimas de estupro”?

A terceira constatação é que a pluralidade de atos performativos, de ser e de existir, para além da categoria homem e mulher, como explicitado por Butler (2003), não é tão vista nos Library of Congress Subject Headings (Cabeçalhos de Assunto da Biblioteca do Congresso Americano), conforme mencionado no vocabulário Homosaurus (Adolpho et al., 2024), há pelo menos 16 identidades de gênero, a saber: bigender identity; non-euro-american gender and sexual identities (subdivididas em 89); genderfluid identity; men (subdivididas em 8); pangender identity; transgender identity; trigender identity; women (subdivididas em 8); xenogender identity; transgenderqueer identity; non-binary identity; genderqueer identity; gender non-conforming identity; demigender identity; cisgender identity; agender identity, o que expressa um certo anacronismo dos LCSH em relação a questões de gênero.

Outros estudos, que se constituem desde os anos 1970 até o final do século XX, expressam a atuação dos LCSH no que se refere às questões de gênero, observando avanços, mas também a manutenção de retrocessos, de preconceitos e de ofensividades.

O estudo de Margaret N. Rogers (1993) destaca a evolução dos cabeçalhos de assunto da Biblioteca do Congresso Americano referentes às mulheres. Isto posto, foram realizadas revisões nesses cabeçalhos (8 em 1975 e 14 em 1991), além da inclusão de cabeçalhos sobre mulheres em grupos ocupacionais, da exclusão de cabeçalhos sexistas e de remissivas cruzadas, da mudança de uma visão limitada das mulheres para uma visão mais equilibrada, que leva em conta a variedade de papéis que elas desempenham. No entanto, formas mais sutis de preconceito de gênero permanecem nos cabeçalhos e nas maneiras como são aplicados, como nas questões ocupacionais em que, por exemplo, o cabeçalho “Engenheiros” possui como Termo Específico (TE) “Mulheres Engenheiras”, o que resulta na suposição de que todas as obras indexadas com o cabeçalho “Engenheiros” tratam de homens ou que todos(as) os(as) engenheiros(as) são homens, salvo indicação contrária, bem como que as mulheres são um subconjunto dos homens em geral.

Para complementar as concepções sobre as questões de gênero nos LCSH, é pertinente observar que, ao realizar buscas na ferramenta Linked Data Service da Library of Congress, é possível perceber que alguns termos já foram criados sem a preposição “como”, a exemplo de: “Women scientists” (Mulheres cientistas), “Women agricultural laborers” (Trabalhadoras rurais).

É importante citar exceções do que seria ideal para uma boa representação e recuperação das obras e seguimento dos preceitos da garantia literária nos LCSH, a exemplo da criação de cabeçalhos de assunto que considerem as especificidades das diferenças de gênero no que diz respeito ao tratamento das obras inseridas no catálogo, como: “Social workers” (Assistentes sociais); “Women social workers” (Mulheres assistentes sociais); “Gay social workers” (Gays assistentes sociais); Lesbian social workers (Lésbicas assistentes sociais); “Male social workers” (Homens assistentes sociais) e não indexar todas as obras em Assistentes sociais, o que pode ocasionar uma série de inconsistências na indexação e no catálogo.

Assim, à medida que uma obra incorporada ao acervo trate da atuação profissional de lésbicas assistentes sociais, cria-se o cabeçalho de assunto “Lesbian social workers” (Lésbicas assistentes sociais), sem indexá-la em “Social workers” (Assistentes sociais).

Portanto, ainda que seja possível observar um conjunto de avanços nos LCSH, seja pela revisão de termos historicamente preconceituosos contra as mulheres, as pessoas LGBTQIAPN+,6 seja pela criação de novos termos que representam a atualidade mais fidedigna da realidade das mulheres, das pessoas LGBTQIAPN+, é necessário um fortalecimento permanente da política de indexação a fim de que os LCSH se estabeleçam como um cabeçalho que não reproduza na comunidade usuária do século XXI os preconceitos históricos das gerações anteriores.

3. Política de indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará em relação a questões de gênero

Com o amplo desenvolvimento dos cabeçalhos de assunto online, assim como considerando os múltiplos desafios de inclusão e representação fiel da realidade, os Sistemas de Bibliotecas Universitárias são desafiados a pensar o robustecimento de políticas de indexação que incluam questões globais, sem comprometer particularidades regionais.

Nesse sentido, as bibliotecas universitárias brasileiras estão revisando as políticas de indexação, visando o combate ao uso de vocabulários controlados preconceituosos, incluindo a padronização de pontos de acesso de assunto relacionados a questões de gênero.

Como exemplo, é possível mencionar a Política de indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande e o Manual de rotinas e procedimentos de indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que, para padronizar as entradas de assunto que envolvem questões de gênero, afirmam: “usar o gênero masculino, exceto quando a temática do documento tratar especificamente do gênero feminino”. Ex.: Trabalhadores rurais e Trabalhadoras rurais (Universidade Federal do Rio Grande, 2019, p. 11; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023, p. 9).

Tal recomendação se estabelece como um avanço no que diz respeito à política dos LCSH, porém o caminho mais pleno seria uma representação que contemplasse a diversidade de gênero, para além de homens e de mulheres e sem levar em conta apenas homens.

No que se refere às questões de gênero e às decisões no âmbito da indexação e à adoção de vocabulários controlados, a Política de indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará (2016) aborda os aspectos, a saber:

  • do ponto de vista da Língua portuguesa (Gramática), menciona os tipos de flexões dos termos - número (singular e plural), gênero (masculino e feminino) e grau (aumentativo e diminutivo);

  • sugere seguir os vocabulários controlados;

  • a linguagem adotada pela comunidade usuária;

  • a forma como o termo é mais utilizado numa determinada área do conhecimento;

  • a extração no próprio documento, quando não encontrado nas fontes autorizadas, tais como Library of Congress Subject Headings (LCSH); catálogo online da Biblioteca Nacional (Brasil); Catálogo da Rede Pergamum (CRP); Descritores em Ciências da Saúde (DeCS);

  • o exame de partes do documento, como: introdução, metodologia (que inclui população, observação de gênero, raça, faixa etária), durante a análise de assunto.

Em primeira instância, a política de indexação do SiBi-UFC estabelece o uso de gênero a partir da dinâmica masculino-feminino, sem atentar para as múltiplas representações de gênero e não detalha com exemplos específicos as questões de gênero, conforme indicado no exemplo da Política de indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande (2019) e do Manual de rotinas e procedimentos de indexação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2023).

Em segunda instância, a base para indexação dos documentos no SiBi-UFC segue, como padrão internacional, os LCSH e, como padrão brasileiro, a Biblioteca Nacional (Brasil) e o CRP, que seguem os mesmos padrões dos LCSH, os quais contemplam uma abordagem de gênero que subordina as mulheres aos homens, ou seja, a manutenção da estrutura patriarcal dominante, o que não favorece a construção de uma política de indexação autônoma e inclusiva em relação às concepções de gênero.

Em terceira instância, o SiBi-UFC considera a linguagem adotada pela comunidade usuária, o que favorece a construção do uso de termos com base em pensamentos técnicos e científicos atualizados, em diálogo com possíveis demandas da comunidade acadêmica, como docentes, discentes e servidores(as) técnico-administrativos(as).

Em quarta instância, como consequência da terceira, o uso de termos atuais e científicos exige um diálogo direto com docentes, pesquisadores(as), profissionais que atuam com questões de gênero, a fim de que a política de indexação siga conjuntamente o que pensam os(as) membros(as) da comunidade acadêmica e a literatura científica brasileira e internacional.

Em quinta instância, é recomendável que o SiBi-UFC pense uma revisão da política de indexação em relação ao gênero, visando detalhar com exemplos mais claros e objetivos as representações de gênero, assim como dialogar mais amplamente com especialistas da própria comunidade usuária, a fim de robustecer a política de indexação.

Em sexta instância, a análise dos dados trará uma concepção pormenorizada, porém não exaustiva, sobre o uso dos termos em relação ao gênero no catálogo SiBi-UFC, com ênfase naqueles que contêm a palavra “homem”, o que permitirá a compreensão sobre a política de indexação da instituição e a atuação da comunidade bibliotecária, visando possíveis propostas de revisão, nesse recorte específico.

Portanto, o SiBi-UFC demonstra um processo de amadurecimento acerca da política de indexação, no que diz respeito às questões de gênero, que podem ser aprimoradas a partir de diálogos mais amplos entre a Comissão de catalogação (anteriormente responsável por elaborar e avaliar a política de indexação) e a realidade que cerca as questões de gênero, representada pelos cabeçalhos de assuntos brasileiros e internacionais que o SiBi-UFC toma como base, a comunidade usuária, docentes, pesquisadores(as), profissionais que atuam com questões de gênero e a literatura técnico-científica.

4. Metodologia

A pesquisa foi constituída por meio de buscas no catálogo do SiBi-UFC, que é inspirada, sobretudo, nos LCSH, visto que os cabeçalhos de assunto da Library of Congress são amplamente aplicáveis em bibliotecas universitárias brasileiras; estão disponíveis em acesso aberto por meio da ferramenta Linked Data Service da Library of Congress, permitindo uma democratização de acesso aos termos. Esta ferramenta possui uma política de atualização permanente, o que favorece a revisão e a criação de novos termos, incluindo os que envolvem questões de gênero.

No que se refere aos fins, a pesquisa é exploratória, no sentido de estabelecer uma familiarização entre os termos relacionados às questões de gênero no SiBi-UFC, visando sugestões de adequação desses termos.

No que tange aos meios, trata-se de uma revisão bibliográfica, por estabelecer um diálogo entre autorias brasileiras e estrangeiras sobre gênero, tanto no contexto dos LCSH quanto no contexto da política de indexação do SiBi-UFC, bem como de uma pesquisa documental, por lidar com o catálogo do SiBi-UFC, que não recebeu tratamento analítico, sendo, portanto, um estudo que busca a compreensão sobre como a política de indexação do SiBi-UFC trata das terminologias de gênero, com ênfase naquelas que designam o termo homem.

Acerca do tratamento dos dados, a pesquisa é qualitativa, na medida em que se baseia em dados abertos e subjetivos dos termos relacionados a questões de gênero do catálogo SiBi-UFC, buscando uma interpretação crítica e revisionista dos termos que contemplam a palavra “homem”.

A respeito dos instrumentos para a coleta de dados, vale destacar que se constituiu de uma análise documental, aplicada no catálogo do SiBi-UFC a partir da busca feita do seguinte modo, a saber:

  • o uso do argumento de busca “homem”;

  • tipo da pesquisa: qualquer posição no texto;

  • campo padrão/MARC tag: 150 – Cabeçalho – Termo tópico;

  • no catálogo de autoridades do software Pergamum web, do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará, em 2024.

Diante dessa busca, foram recuperados 69 termos e analisados 31 termos. Os 31 termos foram selecionados por integrar os campos 150 – Cabeçalho – Termo tópico e 450 – Remissiva “ver” – Termo tópico.

Já os 38 termos restantes não foram considerados, devido aos seguintes fatores:

  • ocorrência do termo “homem” não integrar os campos 150 e 450, e sim os campos 550 – Remissiva “ver também” – Termo tópico e 680 – Notas gerais públicas;

  • não requererem mudanças, a exemplo de “Relação homem-mulher” e “Relação homem-mulher na literatura”;

  • com os registros de autoridade incompletos;

  • outros vocabulários como fonte de dados, DeCS e Thesaurus Brasileiro da Educação (Brased);

  • requererem transferência, por duplicidade de registros no catálogo SiBi-UFC, por exemplo: “Homem pré-histórico” e “Sociedades primitivas” integram o único cabeçalho de assunto “Povos pré-históricos”; “Homem x Influência sobre a natureza” e “Natureza x Influência do homem” também contemplam o mesmo cabeçalho “Natureza x Efeito dos seres humanos”.

Portanto, a análise documental, ao expor os cabeçalhos de assunto autorizados e remissivas “ver” que incluem a palavra “homem”, possibilitou uma revisão dos termos visando à exclusão de vieses de gênero e à atualização dos processos terminológicos da política de indexação do SiBi-UFC.

5. Análise dos dados

A análise dos dados foi constituída por 31 termos que abrangem uma variedade de questões relacionadas ao gênero homem no catálogo SiBi-UFC e realizada a partir da busca no catálogo SiBi-UFC e na ferramenta Linked Data Service, em que os LCSH estão integrados, e possibilitou a construção das seguintes categorias: Seres humanos (15); Disciplinas (9); Mista (4); Outros (3).

Os dados foram analisados em quatro seções e dispostos em quatro quadros, separados de acordo com a categoria pertencente, com a descrição a seguir: três colunas para a representação dos resultados da busca realizada, nas cores preto e branco. Desse modo, encontram-se à esquerda os cabeçalhos de assunto e os respectivos termos equivalentes na língua inglesa, ao meio as remissivas “ver” e à direita a revisão terminológica. As ocorrências com a palavra homem, em caixa baixa, na cor vermelha, para destacar os termos e as remissivas “ver” recuperados no catálogo SiBi-UFC e as ocorrências com a palavra man, em caixa baixa, na cor verde, para indicar as remissivas “ver” recuperadas nos LCSH.

5.1 Seres humanos

Iniciando pela categoria “Seres humanos”, que contemplou um maior número de termos, devido à imperativa adequação terminológica e às representações sociais equivocadas que atribuem o gênero homem como representante único dos seres humanos e, consequentemente, refletem essas representações são refletidas nos vocabulários de assunto.

No quadro 1, estão disponíveis, à esquerda, os cabeçalhos de assunto e os respectivos termos equivalentes na língua inglesa; ao meio, as remissivas “ver”; e, à direita, a revisão terminológica.

Quadro 1
Categoria Seres humanos
Categoria Seres humanos
Fonte: dados da pesquisa.

Capital humano – nos LCSH, “Human capital”, inclusive o termo variante “Homem x Valor econômico” foi excluído dos LCSH e houve a inserção dos seguintes sinônimos: Ativos humanos; Seres humanos x Valor econômico; Recursos humanos. Nesse caso, recomenda-se as mesmas modificações no registro “Capital humano”, do catálogo SiBi-UFC.

Cor da pele – nos LCSH, “Human skin color” (Cor da pele humana). Assim, é recomendada a exclusão da remissiva “ver” “Cor do homem”, mesmo que nos LCSH ainda permaneça, bem como a inserção da remissiva “ver” “Cor dos seres humanos”, a revisão e a substituição do termo preferido “Cor da pele” para “Cor da pele humana”. As obras indexadas com o registro de autoridade “Cor da pele” no catálogo do SiBi-UFC tratam da cor de pessoas negras, há inclusive uma obra que trata de questões das mulheres negras, o que demonstra a necessidade de criação e de inclusão de novos termos vinculados a essas obras, a exemplo de: Pessoas negras x Cor e Mulheres negras.

Homem – o termo “Man” somente foi substituído por “Human beings” (Seres humanos) em 2012, na Linked Data Service da Biblioteca do Congresso Americano, porém o incluíram como remissiva “ver”, o que ainda traz problemas para o cabeçalho, pois trata o termo “Homem” no singular como representação única da humanidade, dos humanos, dos seres humanos, dos povos, do homo sapiens, da raça humana, sem incluir os demais grupos humanos.

Homem na arte – nos LCSH, “Human beings in art” (Seres humanos na arte), com a seguinte instrução: termo utilizado para obras que tratam da representação dos seres humanos na arte. Obras sobre técnicas da representação anatômica da figura humana (no todo, em parte, órgãos etc.) entram em “Figura humana na arte”. Há também a remissiva “ver” “Humanos na arte”. Portanto, recomenda-se também a substituição de “Homem na arte” por “Seres humanos na arte”, no catálogo de autoridades de assunto do SiBi-UFC.

Homem na literatura – o “homem” como representação da humanidade é um termo enviesado e preconceituoso e que não deveria permanecer como remissiva “ver”. Um processo de tradução da indexação respeitoso seria “Human beings in literature”, caso fosse esse o conteúdo das obras. Se as obras tratarem especificamente de homens na literatura, o termo indexado seria “Men in literature” (Homens na literatura), o respectivo termo foi revisado em 2020, na Linked Data Service da Library of Congress.

Homem pré-histórico – o termo preferido nos LCSH foi modificado para “Prehistoric peoples” (Povos pré-históricos), no entanto, apesar da revisão, “Man, Prehistoric” (Homem pré-histórico) ainda permanece como remissiva “ver”, reforçando o enviesamento de gênero. Uma recomendação justa é a adoção de entradas de assunto separadas, quando se tratar de uma temática geral, usar Povos pré-históricos e quando se tratar de uma temática específica, usar Homens pré-históricos; Mulheres pré-históricas; Crianças pré-históricas, além de excluir as remissivas “ver”: “Homem pré-histórico” e “Homem primitivo”. Desse modo, tem-se, a seguir, a estrutura hierárquica no tesauro:

TG Seres humanos
         Povos pré-históricos
TE Homens pré-históricos
TE Mulheres pré-históricas

Homem x Efeito do clima – é recomendada a revisão e a mudança para o termo preferido “Human beings x Effect of climate on” (Seres humanos x Efeito do clima) e a inclusão da remissiva “ver” Seres humanos x Fatores climáticos, além da exclusão de “Homem x Efeito do clima”.

Homem x Efeito do meio ambiente – o termo preferido nos LCSH foi modificado para “Human beings x Effect of environment on” (Seres humanos x Efeito do meio ambiente). Portanto, a revisão e a substituição do termo preferido “Homem x Efeito do meio ambiente” para “Seres humanos x Efeito do meio ambiente” é recomendada.

Homem x Migração – o termo preferido nos LCSH foi alterado para “Human beings x Migrations”. Desse modo, a revisão e a mudança para o termo preferido “Seres humanos x Migrações” e a exclusão de “Homem x Migração” é recomendada no catálogo, devido ao teor preconceituoso na representação, que estabelece a categoria única “homem” como humano, seres humanos, humanidade.

Homem x Natureza animal – a mudança para “Human beings x Animal nature” (Seres humanos x Natureza animal) é indicada, além da inserção do sinônimo “Natureza animal dos seres humanos”. A revisão e a mudança para o termo preferido “Seres humanos x Natureza animal” e a exclusão de “Homem x Natureza animal” são recomendadas no catálogo devido ao teor preconceituoso na indexação, que estabelece a categoria única “homem” como representação dos seres humanos.

Homem x Origem – a mudança para “Human beings x Origin” (Seres humanos x Origem) é indicada, além da inclusão dos sinônimos “Origem dos seres humanos”, “Antiguidade dos seres humanos”. A revisão e a mudança para o termo preferido “Seres humanos x Origem” e a exclusão de “Homem x Origem” são recomendadas no catálogo.

Mudanças climáticas x Influência do homem – nos LCSH, “Climatic changes x Effect of human beings on” (Mudanças climáticas x Influência dos seres humanos ou Mudanças climáticas x Efeito dos seres humanos). Tanto o ponto de acesso principal que contém “Influence on man” (Influência do homem) como essa subdivisão foram excluídos e é recomendada fortemente a sua exclusão no catálogo SiBi-UFC.

Natureza x Influência do homem – para o SiBi-UFC, são recomendadas a revisão e a mudança para o termo preferido “Nature x Effect of human beings on (Natureza x Influência dos seres humanos) e a inclusão da remissiva “ver” Natureza x Efeito dos seres humanos, além da exclusão de “Natureza x Influência do homem”.

Relação homem-planta – nos LCSH, “Human-plant relationships” (Relação humano-planta) é o termo preferido e a remissiva “ver”, “Man-plant relationships” (Relação homem-planta) foi mantida nos LCSH, mas a exclusão dela é recomendada no SiBi-UFC. Inclusive há uma nota de edição que orienta o uso da subdivisão “Efeito dos seres humanos” ou “Influência dos seres humanos” para animais específicos e grupos de animais e não do termo que contém “homem”.

Relações homem-animal – nos LCSH, “Human-animal relationships” (Relação humano-animal) é o termo preferido e os termos variantes “Man-animal relationships” e “Animal-man relationships” foram mantidos, mas a exclusão deles é uma indicação justa e respeitosa para o SiBi-UFC.

5.2 Disciplinas

A categoria “Disciplinas” considera os termos relacionados às áreas do conhecimento e temáticas relativas às questões de gênero. O quadro 2 expõe, à esquerda, os cabeçalhos de assunto e os respectivos termos equivalentes na língua inglesa; ao meio, as remissivas “ver”; e à direita a revisão terminológica.

Quadro 2
Categoria Disciplinas
Categoria Disciplinas
Fonte: dados da pesquisa.

Homem (Teologia) / “Man (Theology)” – remissiva “ver” do termo já existente nos LCSH: “Theological anthropology” (Antropologia teológica), assim, a transferência do registro de autoridade “Homem (Teologia)” para “Antropologia teológica” é recomendada, no catálogo. A exclusão da remissiva “ver” é indicada, pois na MARC tag 680, ou seja, notas gerais para exibição pública no catálogo, há a seguinte instrução: usado para obras que tratam da teologia ou doutrina da humanidade, e não “Homem (Teologia)”, forma estabelecida anteriormente nos LCSH e enviesada. Inclusive, há a entrada de assunto “Mulheres x Aspectos religiosos” e seu respectivo sinônimo deveria ser Mulheres (Teologia) para tratar obras sobre Teologia ou doutrinas religiosas referentes às mulheres, e não “Mulher (Teologia)”.

Homem (Teologia cristã) / “Man (Christian theology)” – remissiva “ver” do termo já existente nos LCSH, “Theological anthropology x Christianity” (Antropologia teológica x Cristianismo). O termo “Men (Christian theology)” / Homens (Teologia cristã) é usado para obras que tratam da teologia cristã dos homens. Obras sobre a teologia cristã da humanidade entram em Antropologia teológica x Cristianismo. Assim, ao analisar as obras no catálogo do SiBi-UFC, indexadas com o termo Homem (Teologia cristã), são recomendadas a revisão do registro de autoridade e sua substituição para o seguinte ponto de acesso de assunto “Antropologia teológica x Cristianismo”, assim como não é recomendado inserir a remissiva “ver” Homem (Teologia cristã), devido a sua carga semântica preconceituosa.

Interação homem-máquina – nos LCSH, “Human-computer interaction” (Interação humano-computador) e seus variantes são “Interação computador-humano” e “Fatores humanos em sistemas de computação”. O sinônimo “Interação homem-máquina” foi excluído nos LCSH, pois a semântica do termo se refere aos humanos em geral e não especificamente ao “homem”. Por isso, recomenda-se também a exclusão da remissiva “ver” “Interação homem-máquina” do registro “Interação humano-computador”, no catálogo SiBi-UFC e, para não gerar outras inconsistências no catálogo, como a duplicidade de registros, também é indicada a inclusão da remissiva “ver” “Interação humano-máquina”.

Luta corporal / “Hand-to-hand fighting” – a orientação para o SiBi-UFC é manter a remissiva “ver” “Combate pessoal” e excluir a remissiva “ver” “Man-to-man combat” (Combate homem a homem), pois o Termo Geral (TG) “Combate” integra os seguintes Termos Específicos (TEs) “Women in combat” (Mulheres em combate) e “Hand-to-hand fighting” (Luta corporal). Além do que, a semântica do conceito não envolve apenas homens como representantes da coletividade humana. Há também mulheres na luta corporal, a exemplo do Ultimate Fighting Championship, assim como existem modalidades de lutas corporais para crianças, adolescentes etc. Reduzir a terminologia ao gênero homem torna o termo ofensivo e preconceituoso.

Mecânica humana – nos LCSH, “Human mechanics” (Mecânica humana). Não há as remissivas “ver”: Movimentos mecânicos do homem e Movimentos do homem, há a inclusão das remissivas “ver”: “Mecânica do corpo humano”; “Mecânica corporal humana”; “Biomecânica humana”; “Movimentos humanos”; “Movimentos do corpo humano”. Portanto, a sugestão é que o catálogo SiBi-UFC realize as mesmas revisões e/ou atualizações que os LCSH para “Mecânica humana”.

Mística – nos LCSH, “Mystical union”, mesmo que a remissiva “ver”: “God and man, Mystical union of” (União mística de Deus e o homem ou Deus e o homem ou Homem e Deus) permaneça nos LCSH, a sua exclusão é recomendada no catálogo SiBi-UFC, pois na MARC tag 680 há a seguinte instrução: usado para obras que tratam do relacionamento entre Deus e o(a) cristão(ã) no nível mais elevado da experiência mística, e não “Deus e o homem”, ponto de acesso variante nos LCSH e enviesado, pois uma diversidade de gêneros e de cristãos(ãs) podem se relacionar com Deus, não apenas “o homem”, no singular.

Parasitologia médica / “Medical parasitology” – nos LCSH a remissiva “ver” “Man x Parasites” (Homem x Parasitos) foi excluída e em substituição, “Human beings x Parasites” (Seres humanos x Parasitos). A orientação para o SiBi-UFC é excluir “Homem x Parasitos” desse registro.

Postura humana / “Posture” – a orientação para o catálogo SiBi-UFC é excluir as remissivas “ver” “Man, Erect position of” (Posição ereta do homem) e incluir “Posição ereta dos seres humanos”; “Posição do corpo humano”; “Postura corporal”. É necessário atentar para a remissiva “ver” “Mecânica do corpo humano” e excluí-la, pois integra o seguinte registro de autoridade: “Mecânica humana” e não Postura humana, bem como verificar o descritor em inglês cadastrado em outros vocabulários, a exemplo do DeCS, também “Posture”, para não gerar duplicidade de registros de autoridade.

Sistemas homem-máquina – nos LCSH, “Human-machine systems” (Sistemas humano-máquina) e seus variantes são “Operadores humanos (Engenharia de sistemas)”; “Subsistemas humanos (Engenharia de sistemas)”; “Sistemas de controle homem-máquina”; “Sistemas homem-máquina”; “Sistemas operador-máquina”. A sugestão é excluir as remissivas “ver” “Man-machine systems” (Sistemas homem-máquina), “Man-machine control systems (Sistemas de controle homem-máquina), mesmo que permaneçam nos LCSH, pois a semântica do cabeçalho não se refere especificamente ao “homem”, tornando-os ofensivos.

5.3 Mista

A categoria “Mista” é referente aos termos que contemplam simultaneamente as questões dos seres humanos e das disciplinas, o que exige uma análise particularizada dos termos. O quadro 3 indica, à esquerda, os cabeçalhos de assunto e os respectivos termos equivalentes na língua inglesa; ao meio, as remissivas “ver”; e, à direita, a revisão terminológica.

Quadro 3
Categoria mista
Categoria mista
Fonte: dados da pesquisa.

Antropologia filosófica – nos LCSH, “Philosophical anthropology”. Ainda que o variante “Man (Philosophy)” / Homem (Filosofia) permaneça nos LCSH, a sua exclusão é recomendada no catálogo SiBi-UFC. No entanto, fica a seguinte reflexão: Por que a entrada de assunto “Mulher (Filosofia)” e a remissiva “ver” “Homem (Filosofia)” ainda permanecem no singular? E por que a remissiva “ver” “Homem (Filosofia)” não foi excluída, e criado um registro de autoridade, no plural, para “Homens (Filosofia)”?

Direitos humanos – há 650 obras indexadas nesse assunto, no catálogo do SiBi-UFC. Nos LCSH, a remissiva “ver” “Rights of man” (Direitos do homem) não foi retirada, porém o caminho é excluir “Direitos do homem” desse registro.

Geografia humana/“Human geography” – em 2007, os LCSH revisaram o termo e retiraram a remissiva “ver” “Geographical distribution of man” (Distribuição geográfica do homem), em substituição, incluíram “Geographical distribution of humans” (Distribuição geográfica dos humanos) e a Biblioteca Nacional (Brasil) fez a retirada em 2023. Desse modo, a exclusão, no catálogo, da remissiva “ver” “Distribuição geográfica do homem” é indicada.

Medicina experimental no homem – nos LCSH, “Human experimentation in medicine” (Medicina experimental em humanos). Não há o termo preferido “Medicina experimental no homem”, portanto, a orientação é excluir esse ponto de acesso principal e substituí-lo por “Medicina experimental em humanos”.

5.4 Outros

A categoria “Outros” é referente aos termos que não se aplicam a nenhuma categoria anterior e foram identificados para análise. O quadro 4 define, à esquerda, os cabeçalhos de assunto e os respectivos termos equivalentes na língua inglesa; ao meio, as remissivas “ver”; e, à direita, a revisão terminológica.

Quadro 4
Categoria Outros
Categoria Outros

A categoria outros abrange três registros que não se encaixam nas categorias estabelecidas: “Seres humanos”; “Disciplinas”; “Mista”. Dessa forma, dois desses registros estavam incompletos no catálogo SiBi-UFC e foram encontrados nos LCSH na forma plural “men” e tratam de questões relacionadas aos homens. Além disso, um registro relacionado à remissiva “ver” que contempla formas de vida no geral, sem um contexto de especificidade, como “seres humanos”, “homens”, “mulheres” etc.

Exercícios físicos x Homem – registro de autoridade incompleto no catálogo do SiBi-UFC. A revisão do registro é recomendada e seu termo preferido seria substituído por “Exercise for men” (Exercícios físicos para homens). Nesse caso, a alteração de “homem” no singular para “homens” no plural é a mais indicada.

Homem do campo – autoridade de assunto incompleta e encontrada nos LCSH, em sua forma plural, “Rural men” (Homens do campo ou Homens rurais). Usado como entrada de assunto em uma obra no catálogo, cujo título é: S.O.S., homem do campo! A exclusão e a substituição de “Homem do campo” no registro de autoridade são indicadas, mesmo porque está no singular, como representação da humanidade, o que não é um fato, tampouco realidade. Além do que, há outros termos que podem representar a obra, ao realizar o processo de tradução da indexação, por exemplo, temáticas generalistas: Agricultura x Aspectos econômicos x Brasil; Brasil x Condições rurais; Classes sociais x Brasil.

Vida em outros planetas / “Life on other planets” – não há mais o termo variante “Homem em outros planetas”, e sim “Vidas extraterrestres”, que é a decisão mais indicada para o registro de autoridade, pois é um conceito amplo, não restrito à humanidade e nem ao “homem”, podem existir outras formas de vida, inclusive ainda não descobertas, para além da classe seres humanos.

Considerações finais

Os sistemas de bibliotecas universitárias possuem desafios no que se refere ao desenvolvimento das políticas de indexação que passam por uma criteriosa e permanente revisão dos termos utilizados, considerando as questões de gênero.

Há as seguintes constatações e recomendações para implantação na política e/ou manual de indexação:

  • não usar termos genéricos de gênero, a exemplo de “homem”, substitua por seres humanos, humana, humano, homens, mulheres, gays, lésbicas, conforme o caso;

  • evitar a adjetivação dos termos por meio do uso de feminino, de masculino, a exemplo de: em vez de Infratoras femininas, usar “Mulheres Infratoras”, para mulheres e “Homens Infratores”, para homens; utilizar “Enfermeiras”, para mulheres e “Enfermeiros”, para homens, e não enfermeiros do sexo masculino, tampouco enfermeiros masculinos;

  • duplicidade de registros de autoridade de diversas fontes, isto é, inclusão de mais de um registro de autoridade do DeCS e dos LCSH que de fato são sinônimos, a exemplo de: “Posture”, termo equivalente na língua inglesa, tanto no DeCS quanto nos LCSH. O descritor em português no DeCS é “Postura” e o ponto de acesso preferido na língua portuguesa na Biblioteca Nacional (Brasil) é “Postura humana”. Desse modo, para evitar isso, é de extrema importância a consulta do descritor em inglês cadastrado nos vocabulários de língua inglesa, além da busca comparativa e simultânea dos conceitos nas seguintes fontes: DeCS, LCSH, Biblioteca Nacional (Brasil);

  • enviesamento de gênero por meio da manutenção de termos ou remissivas “ver” que incluem a palavra “homem”, no catálogo SiBi-UFC, como categoria única de representação da humanidade, sobretudo nos cabeçalhos de assunto que abrangem a categoria Seres humanos;

  • vieses de gênero por meio da permanência de pontos de acesso não preferidos que incluem a palavra “man”, nos LCSH, como categoria única de representação da humanidade, em maioria nas pertencentes à categoria Seres humanos.

Para fomento de novos estudos, o presente artigo sugere possíveis temáticas, tais como: revisão dos catálogos de autoridade de assunto dos sistemas de bibliotecas universitárias em relação às questões étnico-raciais e LGBTQIAPN+; estudo sobre as políticas de indexação de bibliotecas universitárias em relação às questões de gênero; perspectivas de inclusão terminológica nos catálogos dos sistemas de bibliotecas universitárias que combatem os vieses de gênero, de raça, de classe, de idade, de deficiência etc.; representação descritiva e temática da informação sob a perspectiva de gênero.

Portanto, é fundamental que as bibliotecas universitárias fortaleçam as ações em torno das políticas de indexação, visando o fortalecimento das práticas de organização e representação da informação, bem como promovendo uma perspectiva linguística e terminológica mais inclusiva nas questões de gênero.

Referências

Adolpho, K. K. et al. (Eds.). (2024). Gender. In Homosaurus. Digital Transgender Archive. https://homosaurus.org/tree

Beauvoir, S. (1970). O segundo sexo: 1: fatos e mitos. Difusão Europeia do Livro.

Butler, J. (2003). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Civilização Brasileira.

Hobart, E. F. M. (2019). Reflecting diversity in the Library of Congress Subject Headings. In S. Epstein, C. Smallwood & V. Gubnitskaia (Eds.), Social justice and activism in libraries: essays on diversity and change (pp. 110-120). McFarland & Company.

Hulme, E. W. (1911). Principles of book classification: chapter III: on the definition of class headings, and the natural limit to the extension of book classification.

Library of Congress. Policy and Standards Division (2024). Subject and genre/form headings. https://www.loc.gov/aba/cataloging/subject/

Rogers, M. N. (1993). Are we on equal terms yet? Subject headings concerning women in LCSH, 1975-1991. Library Resources and Technical Services, 37(2), 181-196.

Saffioti, H. I. B. (2015). Gênero patriarcado violência. Expressão Popular.

UNICEF (2023). International classification of violence against children. https://data.unicef.org/topic/child-protection/violence/sexualviolence/

Universidade Federal do Ceará. Biblioteca Universitária. Comissão de Catalogação. (2016). Política de Indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará. https://biblioteca.ufc.br/wpcontent/uploads/2015/06/politica-indexacao-bu-ufc-09-04-2016.pdf

Universidade Federal do Rio Grande. Sistema de Bibliotecas. Grupo de Estudos em Indexação. (2019). Política de Indexação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande. https://biblioteca.furg.br/images/Manual_de_indexacao_SiB_062019.pdf

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sistema de Bibliotecas. (2023). Manual de rotinas e procedimentos de indexação do SBUFRGS. https://www.ufrgs.br/documenta/d/manual-rotinas-procedimentos-indexacao/

Notas

1 Concepção de Paul-Michel Foucault, filósofo y teórico social francês.
2 De acordo com Butler (2003, p. 216), o termo “matriz heterossexual” designa a “grade de inteligibilidade cultural por meio da qual os corpos, gêneros e desejos são naturalizados”. A autora utiliza esse termo a partir das noções de “contrato heterossexual”, de Monique Wittig (filósofa y teórica do feminismo francesa) e de “heterossexualidade compulsória”, de Adrienne Rich (professora, poetisa e ativista do feminismo estadunidense).
3 Heleieth Iara Bongiovani Saffioti, socióloga e teórica do feminismo brasileira, compreende o conceito patriarcado, em linhas gerais, como categoria específica de determinado período (seis ou sete milênios mais recentes da história humana; um fenômeno social em permanente transformação; que não abrange apenas a família, atravessa a sociedade como um todo; possui como um dos elementos nucleares o controle da sexualidade das mulheres pelos homens (Saffioti, 2015).
4 Considera-se pontos de acesso de assunto: pontos de acesso principal e secundário; termo preferido e não preferido; termo principal ou cabeçalho de assunto; remissiva “ver” ou termo variante ou sinônimo; vocabulário.
5 Termo cunhado pelo bibliotecário inglês Edward Wyndham Hulme, o qual estabelece que "um cabeçalho de assunto, esquema de classificação é garantido somente quando uma literatura em forma de livro existe, e o teste da validade de um cabeçalho é o grau de precisão com que ele descreve o assunto" (Hulme, 1911, p. 447).
6 Sigla que abrange pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênero, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais, Não-binárias e mais.


Recepción: 03 Febrero 2025

Aprobación: 18 Septiembre 2025

Publicación: 01 Abril 2026



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